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A Última Vez

há 5 horas
4 min de leitura

Por Philippe Belchior



Reconheci primeiro o sorriso. Os anos haviam redesenhado seu rosto e dado outra profundidade ao olhar. Ainda assim, aquele sorriso permanecera quase intacto, como algo que o tempo, por descuido ou misericórdia, se esquecera de levar.

Depois de tantos anos, você estava diante de mim. Reconhecia a menina que crescera ao meu lado, ainda presente em certos gestos, mas havia ali também uma mulher que eu não conhecia. Talvez fosse isso que tornasse o reencontro tão inquietante: havia intimidade suficiente para me sentir em casa e mistério o bastante para querer permanecer.

Você contou sua história, e eu contei parte da minha. Falamos das cidades por onde passamos, das pessoas que chegaram e partiram, dos trabalhos e das escolhas que o tempo nos obrigou a fazer. Aos poucos, porém, percebi que preferia ouvi-la. Enquanto conversava, você devolvia à memória lugares que eu julgava esquecidos: uma rua, o campinho onde jogávamos bola, alguma tarde de verão preservada apenas em fragmentos.

A memória costuma reconstruir o passado com uma beleza que talvez ele nunca tenha tido. Ainda assim, eu via duas crianças correndo pelas ruas até o sol desaparecer entre as casas. Quando somos pequenos, desconhecemos a riqueza de não precisar ter destino. Bastava sair de casa, encontrar alguém e dividir algumas horas sem pressa. A felicidade cabia em quase nada: uma bola, uma música, uma conversa ou a companhia de alguém até que alguma mãe surgisse à porta chamando nosso nome.

Você riu ao recordar uma dessas tardes, e pensei que existe um relógio escondido dentro da infância, invisível aos olhos e sem ponteiros que denunciem sua passagem. No começo, ele parece inesgotável. Os verões duram uma eternidade e uma única tarde comporta aventuras suficientes para preencher uma vida inteira.

Mas o relógio continua andando enquanto estamos distraídos demais para perceê-lo. Algumas horas se perdem quando descobrimos o peso do dinheiro; outras, quando compreendemos que os adultos também sentem medo. Depois chegam as despedidas, os compromissos e tudo aquilo que nos ensina a medir a vida em prazos.

Pouco a pouco, o relógio da ingenuidade diminui até que se parte. Não escutamos o estalo. Apenas descobrimos que nos tornamos pessoas que planejam o amanhã e quase esquecem que houve um tempo em que estar vivo já era motivo suficiente para ser feliz.

Quando voltei os olhos para você, as luzes de néon e a fumaça tênue da sala pareciam distantes. Quanto mais conversávamos, mais eu me perdia. Era como cair lentamente em um abismo cuja profundidade eu desconhecia. Não sabia se aquela inquietação era apenas nostalgia dos tempos de outrora ou se alguma coisa nova começava a nascer dentro de mim.

Talvez fosse amor, embora a palavra me parecesse precipitada.

Eu sentia saudade da menina que havia corrido ao meu lado, enquanto começava a me encantar pela mulher sentada à minha frente. Por alguns instantes, temi confundir o afeto pela infância com o encantamento daquele reencontro. Então você sorria, contava algo que nada tinha a ver com nossas lembranças, revelava um pouco da pessoa que se tornara, e minhas explicações perdiam a segurança.

Era você. Não apenas a menina de quem eu me lembrava, mas a mulher que atravessara todos aqueles anos longe de mim e que eu desejava continuar conhecendo quando nossas histórias antigas se esgotassem.

Talvez algumas pessoas permaneçam dentro de nós porque guardam uma versão nossa que ninguém mais conheceu. Você possuía lembranças minhas que eu havia esquecido, e eu conservava partes suas que talvez nem você recordasse. Por isso o passado parecia um farol naquela noite: iluminava a distância percorrida, mas eu já não sabia se apontava para trás ou para algo que ainda poderia existir adiante.

Um dia saímos para brincar.

Corremos pelas ruas até o sol desaparecer entre as casas, trocamos fitas K7 com músicas gravadas um para o outro, jogamos bola e rimos de coisas que o tempo apagou. Fizemos tudo com a pureza de quem acreditava que aquela tarde era apenas mais uma entre tantas que ainda viriam.

Depois voltamos para casa sem perceber que aquela seria a última vez. Não houve uma despedida nem qualquer solenidade capaz de anunciar que uma parte de nossas vidas terminava ali. Nenhum relógio parou para que pudéssemos olhar melhor um para o outro ou permanecer alguns minutos a mais naquela rua.

A infância não costuma avisar quando está indo embora. Ela simplesmente deixa de acontecer..

Depois vieram outros amigos, outros caminhos e as urgências necessárias para nos transformar em adultos. Talvez por isso certas lembranças sejam tão dolorosamente bonitas: não sentimos saudade apenas do que aconteceu, mas também das pessoas que éramos quando a felicidade ainda não precisava ser compreendida para existir.

Olhei novamente para você. O mesmo sorriso permanecia ali, embora agora pertencesse a uma mulher que eu queria conhecer para além de tudo aquilo que havíamos compartilhado. Ainda não sabia se aquela sensação era nostalgia ou amor.

Naquela noite, restou uma certeza. Em algum lugar que o tempo não alcançou, ainda havia duas crianças correndo sob o último sol da tarde, levando fitas gravadas nas mãos e acreditando que o amanhã seria apenas a continuação daquele dia.

Éramos felizes demais para saber que estávamos nos despedindo, pois um dia saímos para brincar sem saber que era a última vez.


Esta crônica nasce da letra de "The Last Time", escrita por Philippe Belchior. A canção, composta em parceria com Lucas Fontgaland, integra o projeto Delorean 80S, desenvolvido pelos dois artistas.

 
 
 

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